Revirando meus arquivos antigos eu encontrei um texto que gostaria de compartilhar convosco, sem a menor pretensão de convencer ninguém a nada e sem qualquer pendor proselitista.

É um texto que escrevi sobre duas coisas que fazem parte de mim e que, naquela altura, era alimento importante que me auxiliava a construir uma caminhada mais confortável, esperançosa e , muito mesmo, intrigante: a Doutrina Espírita,o Esperanto e suas relações.

Trata-se apenas de ideias registradas que talvez eu as amadurecesse ou as amadureça um dia, mas que, por enquanto, mantenho latente, cultivando-as intimamente porque o juízo das minhas próprias inabilidades me fizeram parar, olhar à distância, refletir e caminhar. Desculpas preguiçosas de um redator preguiçoso.

 

Senhores, vou-lhes falar das relações entre Esperanto e Doutrina Espírita……

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Há mais de um século a Federação Espírita Brasileira (FEB) se dedica ininterruptamente ao ensino sistematizado do idioma esperanto.

Desde início do século XX e 30 anos após sua fundação, a instituição religiosa, Casa Mater da Doutrina Espírita, é responsável pelo ensino e difusão do idioma criado pelo médico e linguista polonês Lázaro Luís Zamenhof, contribuiu e o segue fazendo estimulando seus adeptos e simpatizantes que conheçam e estudem a líndoutor_esperantogua, bem como traduziu diversos títulos importantes dentro do movimento espírita para o esperanto.

Segundo apontado pela Liga Brasileira de Esperanto, sediada na capital federal, o departamento editorial da FEB é responsável por um percentual expressivo de todos os livros publicados no idioma do Unua Libro em todo o Brasil e, com grande destaque no mundo esperantófono internacional.

Trata-se não somente das traduções do pentatêuco kardequiano –obras basilares da doutrina espírita, como o Livro dos Espíritos, Evangelho Segundo o Espiritismo, Livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno ou a Gênese—mas de livros e publicações como manuais, dicionários e outras brochuras de diversas ordens, ao longo desses 103 anos dedicados ao ensino do idioma e difusão de uma cultura esperantista.

O Esperanto, como idioma constituído, dotado de e-o_como_revela_o_001vocabulário oriundo de diversas línguas indo-europeias, vem a lume em 1887—30 anos após o surgimento da Doutrina Espírita, com o advento de O Livro dos Espíritos de 1857— com o primeiro manual elaborado por Zamenhoff, intitulado Unua Libro, gramática e manual de conversação.

Ressalta-se que os primeiros adeptos à Doutrina de Kardec, ainda na Europa, eram homens e mulheres intelectualizados, pessoas de ciências e que o espiritismo não era visto necessariamente como corrente religiosa e sim como uma disciplina nova com caráter híbrido entre ciência e filosofia religiosa, convergentes aos pilares do esperanto, de igualdade, paz, equilíbrio e confraternização entre as nações. Um ímã para os seguidores e estudiosos do professor Rivail.

O Esperanto, a Internacia Lingvo, nasce da imperiosa necessidade de comunicação neutra e eficiente na Polônia, àquela época, 1887, pertencente ao Império de todas as Rússias, terras súditas ao tsar Alexandre III.

downloadByalistok, cidade natal do Esperanto, e de seu criador, era uma encruzilhada étnico-cultural ceivada de judeus poloneses, onde se falava, ademais do próprio polonês, ídiche, alemão, ucraniano, russo e outras línguas minoritárias, às portas da uma Rússia Grande, czarista e perigosamente etnocêntrica.

Esse é o contexto berço e nascedouro da língua da comunicação neutra entre povos, pacificadora e agluitinante lato sensu. Livre, pacificadora, internacional e revolucionária. Tal e qual ao Espiritismo, 30 anos antes.

Sempre atentos e de prontidão, aqueles espíritas da primeira hora se converteram aos estudos da língua de Zamenhof, como Ismael Gomes Braga, Leopoldo Cirne e Yvonne do Amaral Pereira , e o converteram num instrumento em prol às postulações da Doutrina Espírita.

la_libro_de_la_spiritojO fio condutor que une intimamente a Doutrina Espírita e o Esperanto, para além das obviedades atreladas ao rol dos ideais comuns de fraternidade e cooperação dos povos, é sua concepção como revelação mediúnica, repetidas vezes reiterada em um número incontável de oportunidades pela Federação Espírita Brasileira, através de suas publicações, encontros, congressos e serviços educacionais.

A investigação do fenômeno de fusão entre essas correntes é pertinente na medida em que o número de esperantistas aumenta ao longo dos anos aqui no Brasil, tendo a FEB como grande indutora. Não é cabível aqui quaisquer análises sobre questões de difusão do idioma, metalinguística ou de antropologia teológica, mas é válido, a título de legitimação de pesquisa científica, evidenciar o incremento no número de estudantes esperantistas , bem como de seu uso como língua internacional emergente, sobretudo em países asiáticos e euroasiáticos, cujos idiomas não utilizam o alfabeto latino, nomeadamente a China, Japão, Polônia e Rússia.bandeiraesperanto

A utilização e manutenção do Esperanto nos serviços oficiais de comunicação social desses países e sua adoção na rede de ensino chinês, à guisa de exemplo, é sintomático do ponto de vista da tentativa do equilíbrio de forças entre o idioma dominante –e seus falantes nativos— com falantes de outras línguas nas relações internacionais. Há emissões regulares em esperanto das Rádios Cuba , Polônia e Vaticano e na onipresente Rádio China Internacional em seus serviços exteriores.

Podem-se citar publicações segmentadas, na esfera privada, em dezenas de países, mas a escolha feita pela China ,em sua rádio estatal, tem um peso simbólico e orientador para muitas nações . Desde 2008, tramita no Senado Federal, o Projeto nº 27, de autoria do então senador Cristovam Buarque, que dispõe sobre a inclusão facultativa do idioma esperanto na grade curricular do ensino médio.

As reflexões propostas aqui apresentadas não estão atreladas à miúde à Doutrina Espírita e a sua larga e sedimentada história, já contada, estudada e refletida à exaustão por pesquisadores de diversas áreas, historiadores, antropólogos, psicólogos e cientistas médicos e, tampouco é afeita ao estudo do Esperanto como língua artificial, linguística ou semiótica, o cerne propositivo aqui é a “história de simbiose do espiritismo com o esperanto” e seus desdobramentos hoje como fonte produtora e difusora de conteúdo histórico e religioso espírita esperantófono mundo afora.

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Há muitas semanas meus ouvidos são ofendidos a cada vez que escuto , principalmente na TV Globo, que os fetos ,vítimas da microcefalia, têm “malformação” cerebral.

Eu me apavoro a cada vez que isso acontececplp_logo e, por isso, decidi pesquisar o que se passa e , para minha surpresa, a expressão “malformação”, existe e convive com a consagrada e morfologicamente mais adequada “má-formação”.

Como sou jornalista, baiano, leonino e curioso, não me fiz de rogado e fui ‘apurar’ a treta linguística

As regras da língua portuguesa são claras e, teoricamente, não admitiriam “malformação” como via adequada, mas….

Há longas controvérsias sobre as origens etimológicas desse deslize morfológico e alguns autores divergem sobre o tema, mas o fato é que as duas formas existem e compartilham de uma convivência pouco confortável.

“Malformação” é um aportuguesamento incômodo da palavra francesa ‘malformation’ e ganhou espaço, sobretudo, nas rodas médicas.

Para mim, ‘malformação’ é ,e sempre será, uma má-formação ortográfica e uma melodia infeliz para ouvidos atentos, aborrecidos e um pouquinho poéticos.

Findo aqui esta postagem com um trecho– para mim, uma das coisas mais lindas que já li na vida – do poema “Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac, devidamente decorado, interpretado, diretamente das memórias afetivas e reminiscências do meu colegial nas ruas da Cidade da Bahia..

“….Amo-te, ó rude e doloroso idioma/ Em que da voz materna ouvi: “meu filho!” /E em que Camões chorou, no exílio amargo/O gênio sem ventura e o amor sem brilho!…”

A roda do oleiro dança, gira e constrói…

Publicado: 21 de janeiro de 2015 em Sem categoria

Todos os textos experimentais serão removidos e substituídos.

Provando-se tudo: template, botões,fontes, textos importados do blogspot e….paciência.

Bonvolo, atendu!

Olá, mundo!

Publicado: 21 de janeiro de 2015 em Sem categoria

Saluton , mondo!

>Postagem experimental<

Letras e arranjos de pernas pro ar – por enquanto! E letras soltas de nada valem....

O abraço fraterno do Pinguim

Ubuntu Linux, solidariedade, cooperação e inclusão digital no Brasil.


Camaradas,

Há muitos dias que não posto nenhum texto aqui por total preguiça e displicência, mas redimo-me agora escrevendo sobre algo pouco diferente das crônicas postadas preteritamente. Eu vou falar de pinguins!

Falar de pinguins? Sim, uma espécie de pinguim que não precisa necessariamente viver nas zonas austrais mais gélidas: o Linux!

Aproveitando o clima de celebração pelos 20 anos de sua existência, senti a necessidade de compartilhar minha experiência como usuário Linux porque não aguento mais meus amigos e conhecidos perguntando e repetindo besteiras do tipo: “Linux é feio e difícil de usar” ou me recriminando porque uso o pinguim.


Muitas pessoas só tiveram a oportunidade de ver esse sistema operacional (SO) funcionando uma única vez, quando compraram seus computadores mais baratos – pois como o sistema é gratuito,o preço final de máquinas que o utilizam pode ser substancialmente mais barato do que aquelas que rodam o Windows 7– e logo o desinstalaram para usar a versão pirata do Windows e seus aplicativos.

Bom, para início de conversa, quando se elege comprar um computador sem sistema operacional embarcado ou com o Linux– esses que são vendidos em grandes redes de supermercados ou lojas de departamentos–assumimos a responsabilidade de instalar um sistema que mais nos apeteça ou melhorar e aperfeiçoar aquele que acompanha a máquina.

Aí reside o problema, considerando que para baratear custos empresas como a CCE Info, por exemplo, que não vendem computadores sem sistema operacional, oferecem a pior versão de Linux possível, deliberadamente constituída para executar operações mais básicas.

Por conta disso, o mito do pinguim como alternativa de baixa qualidade e de difícil uso vai tomando corpo, levianamente. Quero vos dizer agora, que o Linux não é feio, não é difícil e faz tudo com igual eficiência que o Windows ou Mac, basta saber escolher a distribuição que se adapte melhor ao seu perfil.

Amigos, vamos deixar claro as coisas aqui: assim como existem diversas versões do Windows: XP, Vista, Seven, etc, há uma enormidade de empresas desenvolvedoras e distribuidoras de Linux que oferecem gratuitamente, ou NÃO, versões que atendem às infinitas necessidades de cada cliente. São as famosas distros.

Eu uso o Ubuntu Linux, desenvolvido pela Canonical, mas já utilizei Fedora, OpenSuse, Mandriva, Linux Mint , e suas variantes, e me sinto bastante satisfeito com a minha escolha final.

Assim como existe fanatismo religioso, esportivo e político, também há o fanatismo tecnológico. Sabemos que usuários de Mac julgam que seus produtos são melhores. Os defensores do Windows –que ,em geral, são menos devotos– dizem que seu sistema é mais funcional e estável.Existem também os linuxistas radicais.

Apesar de ser entusiasta e usuário Ubuntu, não poderia, jamais, deixar de reconhecer os méritos do Windows Seven, que é sim um excelente sistema, mas não me atende de forma tão conveniente como o Ubuntu o faz.

Cada qual escolhe na vida uma causa a seguir, uma ideologia que se lhe apresenta mais coerente, algo que o faça sentir diferente, único e a questão do Linux, pelo menos para mim, passa por esse viés, o viés da liberdade incondicional e irrestrita.

Usar Linux pode ser, além de uma escolha conveniente e pessoal, uma escolha política, na medida em que o indivíduo, de forma consciente, decide utilizar uma plataforma aberta e democrática, por essência globalizadora, globalizante e, de fato, ferramenta legítima de inclusão digital.

Afinal, o que é o Linux?

O Linux é o núcleo ,a base, de sistemas operacionais de dezenas de distribuições, geralmente 100% gratuitas e abertas. Isso quer dizer que qualquer um pode usá-lo sem pagar pela licença, alterá-lo conforme lhe aprouver e distribuí-lo como e quando quiser, para quem melhor lhe pareça.

O sistema é identificado por um pinguim cujo nome é Tux. O Tux aparece como personagem de vários jogos e softwares nativos e sua figura mais conhecida é a que é retratado ,sentado, como se estivesse olhando para sua cara e sorrindo, desafiando-o a ser mais livre e feliz.

Existem muitas distribuições do Linux, de várias procedências e apropriadas para usos distintos. Como já disse, sou usuário do Linux Ubuntu e o utilizo absolutamente para tudo: trabalho, diversão, e muitas futilidades.

Para ser bem sincero, o Ubuntu é o meu maior passatempo ultimamente e tentar decifrá-lo, personalizá-lo é uma delícia. Perco dias e madrugadas com ele. Cada qual com sua loucura, não é mesmo?

O Ubuntu Linux, ou simplesmente Ubuntu, é um sistema esteticamente lindo, funcional e atende às minhas necessidades de uma forma muito confortável.

Eu, conforme já foi dito, não tenho absolutamente nada contra o Windows, aliás, até gosto do Seven, mas há uma série de razões que me deixam mais cômodo por aqui.

Primeiro, aqui eu não preciso me preocupar em comprar licenças tão logo uma versão nova chegue às lojas e não corro o risco de deixar minha máquina desatualizada.

Segundo, como a quantidade de usuários e a engenharia do sistema é mais robusta e segura do que a dos concorrentes, eu não me preocupo em usar antivírus.

Além disso, ele vem com tudo o que é preciso para o uso ordinário. Reconhece, na maioria esmagadora dos casos, todos os hardwaresde sua máquina e não lhe toma horas a fio instalando aquela quantidade enorme de programas antes de pôr seu computador em funcionamento.

Companheiros, não quero proselitar ninguém à causa Linux, mas aqui tudo é possível! Você gosta de assistir filmes no seu computador ou escutar seus CDs prediletos? Aqui você pode! Tem escritório, está preocupado com textos e planilhas? Sua solução é o LibreOffice, suíte de aplicativos para criação de textos, planilhas, apresentações, criação de banco de dados e desenhos.

Pode-se usar a internet para assistir vídeos no YouTube, descarregá-los ou ripá-los em MP3. Conhecer gente nos bate-papos, fazer transações bancárias com total segurança, descarregar vídeos via torrents ou compartilhar arquivos no Amule, versão open sourcedo Emule.

Há programas para tudo que você queira fazer!

Tudo que o Microsoft Office executa ele também faz, só que você não precisa pagar à parte pela licença, é uma cortesia do Ubuntu, aceite-a e desfrute! – Estou animado e parecendo marqueteiro da Canonical,agora. Risos

Eu posso usar o MSN– num mensageiro alternativo–, Skype, gravar discos e usar toda a linha de produtos Google e Mozilla, só que de uma forma mais eficiente e rápida. Neste momento, estou escrevendo e o Ubuntu acaba de me informar que sincronizou este texto numa nuvem.

Esse cara ficou louco? Não, calma! Vou explicar: o Ubuntu oferece gratuitamente aos seus usuários um sistema de tutela preventiva de arquivos em seus servidores. Enquanto você está escrevendo, salvando músicas ou fotografias, ele vai sincronizando seus arquivos em uma pasta na internet, nas nuvens , como se convencionou chamar. É o tal do Cloud Computing!


Este serviço é oferecido gratuitamente por um aplicativo chamado Ubuntu One. O usuário tem até 5 GB para salvar seus arquivos nos servidores da Canonical, sem custo algum.

Caso você necessite de mais espaço poderá comprá-lo conforme suas necessidades. Vamos combinar que 5 GB é um tamanho razoável e o melhor é que depois que se autoriza o serviço, é só relaxar e aproveitar a benesse.

A caminhada do Pinguim

Se você chegou até essa parte do texto é bom que saiba ou relembre de algo importante: eu não sou analista de sistemas nem desenvolvedor de software, sou apenas um jornalista blogueiro e usuário do Ubuntu Linux, portanto o que está registrado aqui são só impressões construídas através dos anos e não o reflexo de um estudo técnico e nem tem pretensão de sê-lo.

Sou um usuário final do sistema falando para outros. Em resumo, seria uma conversa de comadres hi-tech.

Vamos lá: a primeira versão do Linux foi oferecida aos usuários em 1991 pelo finlandês Linus Torvalds, então estudante de engenharia de sistemas que, na verdade, só se constituía do Kernel, ou núcleo básico do sistema, a base para que engenheiros e programadores desenvolvessem softwares e aplicações que rodassem a partir do núcleo central que tem seu código completamente aberto para essas finalidades.

Isso quer dizer, de uma maneira muitíssimo rasa, que Torvalds possibilitou ao mundo da informática ,em 1991, uma espécie de “loteamento com infraestrutura básica para moradia” ou uma “laje pronta, esperando pela suspensão de suas paredes”.

A partir dessa base foi possível desenvolver as primeiras versões de um sistema operacional constituído, naquela época, ainda em linha de comando.

Calcula-se, segundo dados das organizações Linux Counter e Distro Watch , que aproximadamente, 30 milhões de máquinas rodem distribuições de Linux no mundo inteiro.

Eu observei que muitas publicações sobre o tema aplicam este dado ao número de usuários e não ao número de máquinas, erroneamente. Levando-se em consideração os dados estatísticos divulgados pelas instituições citadas, o número de usuários pode ser exponencialmente maior.

Lembremo-nos que um computador , na maioria dos casos, é compartilhado por muitas pessoas, por uma família e, por conta disso, o número de linuxistaspode chegar tranquilamente aos 50 milhões de almas.

Ainda, segundo dados apurados ,das fontes já citadas, o Brasil ocupa o quarto lugar em número de máquinas registradas e , portanto, de usuários. Estariam na nossa frente Estados Unidos, Alemanha e Itália. Lembrando que esses dados são apenas demonstrativos de máquinas registradas, assim sendo, a estatística mais razoável pode estar equivocada e o número real ser radicalmente mais inflado.


Linux é que nem SUS, muita gente usa e não sabe!

Eu trabalhei alguns anos como jornalista para determinados departamentos do Ministério da Saúde ,em Brasília, e aprendi que todos nós somos usuários do Sistema Único de Saúde, quer você goste ou não.

Não vou me ater a esta reflexão agora ,da forma devida e adequada, porque não tem relevância para esta postagem. A analogia é a seguinte: mesmo que você possua qualquer convênio, e diga que nunca foi a um hospital público, caso seja acometido de qualquer desgraça em via pública será encaminhado para um hospital da rede conveniada . Rico, pobre, miserável, tropeçou na rua, estava sozinho, bateu a cabeça e teve um piripaque, vai para o SUS e sem susto!

A menos que você tenha importado ,ilegalmente, seus medicamentos, caso você tenha tomado um remédio para dor de cabeça agora ou há minutos atrás, porque já estava cansado de ler um texto tão grande, pode adivinhar quem o teria liberado? Terá sido o Bradesco Saúde, Golden Cross, Sul-América, Unimed? Não! Foi a Anvisa,que é SUS!


Então, você está louco por aquele Smart Phoneque usa Android, não é? Mas é nem imagina que ele foi desenvolvido pelo Google tendo como base o Kernel do Linux. Se você for cliente do Banco do Brasil,pode não saber, mais os caixas automáticos mais rápidos rodam com uma versão do pinguim.



Quer mais? Você adora viajar e ,antes de pôr a mochila nas costas, gosta de verificar os mapas do Google Maps ou desfrutar da tecnologia que o Google Earth disponibiliza, deslumbrado ? Pois é, segundo informações de imprensa especializada, eles usam Ubuntu para isso. Faz compras em grandes cadeias de supermercados? Adivinhe quem gerencia a rede de computadores, quem é o servidor? Não vou responder! Cansei!

Votou em Dilma? Saiba que ela usou o Ubuntu Linux para construir e alimentar seu blog na campanha presidencial.

Instalar Sistema Operacional não é o mesmo que instalar geladeira e fogão!

Há muitas ocasiões na vida em que é importantíssimo mudar e muitas pessoas não sabem fazem isso de uma forma menos traumática ,pois simplesmente não se preparam para intercambiar rotinas e procedimentos.

Quantas pessoas lêem manuais de instruções antes de usar seus produtos? Quantas? Pois é, mudanças exigem preparo, o mínimo possível, leitura e adaptação.

Àqueles que pensam, sendo bastante sincero, que irão mudar de SO e vão continuar numa cópia do Windows estão redondamente enganados.

Supondo que seu chefe determine que ,a partir do dia tal, que todos os computadores de sua empresa operarão com Ubuntu e você deve se adaptar. O que fazer? Pensando nisso, muitas distribuições Linux oferecem os “Live CDs”para que você possa prová-las sem que tenha que instalá-las.

É muito fácil testar! Descarregue a distribuição que você queira em “Live Cd”, ponha o disco no computador e solicite seu reinício a partir da mídia inserida. Sua máquina vai demorar alguns minutos reconhecendo os periféricos e hardwares do PC e, em seguida, iniciará tal qual à moda padrão da distro escolhida.

Experimente à vontade ,escreva, teste os equipamentos agregados ao computador e se são compatíveis com o SO visitante.

Importante! Dona Maria, Seu João, instalar sistema operacional não é a mesma coisa que ligar a geladeira e enchê-la de suprimentos e esperar que os resfrie. Não é isso! Aconselho de forma enfática que peça auxílio neste momento.

Existem duas possibilidades quando se instala um SO novo. Três, especificamente, no caso do Ubuntu!

A primeira delas é facílima e prática. Caso tenha gostado do que provou, insira o CD ou DVD, se este for o caso, e solicite a instalação usando todo o Hard Disk (HD) de sua máquina. O computador apagará todo o conteúdo antigo, todo mesmo, e seguirá sozinho executando os processos de instalação.

De quando em vez, ele solicitará que você insira algumas informações, como senha e padrão horário, por exemplo. Finalizada a instalação, reinicie-o e está pronto para usar.

A segunda forma não é tão simples! A depender da distribuição, pode ser complicado mesmo! Esta opção é a que você, divide o HD e se lhe permite usar quantas partições suportar, e nelas instalar o que quiser. É aqui que você opta por instalar o Ubuntu ao lado do Windows. Neste caso, a escolha do SO é feita ao iniciar seu terminal.

A terceira via, especificamente para o Ubuntu, é instalá-lo como se fosse um programa executável, dentro do próprio Windows. Este padrão é chamado de Wubi. É fácil, prático, mas, contrariando algumas informações divulgadas, seu funcionamento não tem o mesmo rendimento e eficiência tendo como base as instalações limpas.

Eu desconheço a existência da possibilidade semelhante ao Wubipara outras distribuições Linux. Sei que isso é possível no Ubuntu e Kubuntu.

O Ubuntu e a inclusão digital no Brasil

O Brasil, segundo aqueles indicadores citados acima, representa quase 6% dos usurários do Linux no planeta e esse número pode ser muito maior. Há demanda para isso e ela é solenemente ignorada.

Se cada computador novo viesse com uma versão digna de Linux, como o Ubuntu, ao invés daquela lixaria ineficiente e mal-acabada que denigre a imagem do pinguim, talvez o número de adesões–de clientes que mantivessem seus computadores do jeito que vieram de fábrica–fosse muito maior.

Esses dados são imensuráveis, não há como precisá-los, só nos resta aceitar estatísticas vagas e especular sobre os números.

O fato é que o potencial por aqui é enorme. Numa população de quase 200 milhões de pessoas, as vendas de computadores aumentam dia a dia e uma fatia gigantesca de clientes está comprando seus primeiros computadores agora. Favorecendo mais este quadro, uma parcela significativa de máquinas de mesa e portáteis são vendidas com software livre embarcado.

O Ubuntu nasceu e está pronto para isso! Ubuntu, em Zulu eXhosa, línguas da família bantu, faladas na África do Sul, pode ser traduzido, segundo a própria Canonical, como um ser só é um ser, através de outros” ou ainda “humanidade para com os outros” e mais “a crença no compartilhamento que conecta toda a humanidade”. As duas últimas acepções são traduções livres que eu retirei da Wikipédia.

Eu estive na África do Sul para estudar, e uma das primeiras coisas que perguntei a duas amigas Zulu foi o que era a filosofia Ubuntu. Elas tentaram explicar da melhor forma possível e eu ,absurdamente, entendi à moda dos três mosqueteiros: um por todos e todos por um! Risos.

Todas as acepções, grosso modo,estão corretas, inclusive a minha!

Cooperação,irmandade,união, solidariedade, altruísmo. Quantos outros substantivos mais eu poderia encontrar para  definir o espírito da comunidade Ubuntu? Camarada, caso decida experimentá-lo, não tenha medo e esteja certo que um mar de pessoas estará disposto a ajudá-lo.

Eu não quero puxar a sardinha para o bico do pinguim mas o tesouro do Ubuntu é sua comunidade de usuários, gente boa que ajuda de graça, sem interesse. Sou grato ao Fórum do Ubuntu Brasilpelas incontáveis vezes que recorri a eles e fui carinhosamente atendido. O Fórum de discussões Ubuntu Brasil é uma fonte inesgotável de auxílio técnico e doação.  Vale destacar o honroso trabalho de apoio técnico oferecido pelos sítios Planeta Ubuntu Brasil ,Ubuntu Dicas e Ubuntued.

Aprendi muito sobre Linux com esse povo, mas aprendi bem mais do que meros detalhes técnicos de instalação ou desinstalação de programas. Aprendi que se doar sem esperar nada em troca, ajudar a quem você nem menos viu a face é uma verdade no mundo Linux.

Sabe por que isso seria impossível nos mundos Mac e Windows? Porque a filosofia que eles abraçam está em total desacordo com a do Linux. Perfis de empresas e de usuários diametralmente distintos.

Eu uso Ubuntu por escolha filosófica, porque ele é bom mesmo e porque me desafia, não é porque não tenha dinheiro para comprar licença do Windows ou uma máquina fashion da Apple. E assevero que esta realidade se repete em boa parte desses milhões de usuários mundo afora.

Legítima é a inclusão digital que se dá pelo norte da solidariedade e cooperação, como acontece notadamente com o Ubuntu.

Reitero aqui que este texto é reflexo de observações pessoais. Não tenho legitimidade técnica para escrever profundamente sobre informática, portanto, observe, veja, avalie e tire suas próprias conclusões.

Sócrates Bastos
Jornalista DRT/BA 2180

Experimente a última versão do Ubuntu! Clique aqui para descarregá-la.

*Todas as ilustrações desta postagem não são de minha autoria, foram retiradas da Internet.
O mergulho ao poço das lágrimas: transexual Gisberta, o expurgo da vida o mito e a melodia.
 
gisbertaHá muito tempo venho me programando para publicar mais alguma coisa aqui. Gosto de escrever sem pressa, sem obrigação e o blog me proporciona isso, mas não me sinto menos culpado por esta “desobrigação” mais ou menos anuída pelo meu subconsciente.


Bom, escutei e li algumas vezes que uma oração funciona ou que uma prece surte efeito não por misteriosos poderes sobrenaturais, não por serem divinas, mas porque cada sílaba pronunciada tem uma vibração específica, uma tonicidade, uma espécie de assinatura invisível, espectral.


As palavras não precisam ter sentido necessariamente, mas o som produzido, o ruído mesmo, tem o poder de gerar ondas que são captadas pelo cérebro, como uma chave física que liberasse determinado compartimento, que fizesse com que engrenagens curadoras tivessem suas roldanas psíquicas azeitadas. 

Acredito nisso, sobretudo quando só nos atemos às questões físicas mesmo, mas não poderia me furtar de crer que orações –à moda tradicional– funcionam pois simplesmente são ouvidas. Estou certo de que há quem as ouça, sempre! E sílabas formam palavras e palavras formam frases, mantras, orações… 


Eu fui gravemente atingido e tocado pelo poder das ondas sonoras, fui ferido, caí, levantei-me, chorei e me deixei ser agredido muitas vezes por uma música que escutei outro dia, um som coroado, letra e música pela etérea, nobilíssima e quase sobrenatural voz de Maria Bethânia. 


A balada de Gisberta”, do cantor e autor português Pedro Abrunhosa, é uma dessas composições geniais que, de quando em vez, aparecem para nos arrebatar e nos transportar para locais que não sabemos identificar, mas que deixam rastros e pegadas fortes por essa estrada sem paradeiro no painel de nossas emoções. 

Gisberta, nascida Gisberto Salce Júnior, em São Paulo, foi um transexual brasileiro que chegou ao Porto, Portugal, nos idos de 1990, com o sonho comum às centenas de travestis e transexuais brasileiros de, alguma forma, brilhar em terras estrangeiras e amealhar alguns vinténs. 

Gis, como também era conhecida –segundo apurei em alguns jornais portugueses, blogs e na própria mídia brasileira— conseguiu sim brilhar nos primeiros anos em boates e cabarés na Cidade do Porto e, talvez, também se aventurando por outros rincões europeus como Paris, na França. 

O brilho de Gis, lamentavelmente, foi-se dissipando, desvanecendo-se à medida que ela ia-se envolvendo cada vez mais com o consumo de drogas pesadas. Era, pois, um cometa de brilho intenso e fugaz. Foi dama de beleza ímpar, uma criatura de dúlcida e feminina conduta, contam alguns. 


A luz emanada por Gis é a mesma luz que brota de tantas outras meninas, não nascidas fêmeas em carne, mas brotadas dos botões de rosas brancas, como a enfeitar seus caminhos de lágrimas, luta e sangue. 


Gisberta e as outras tantas, nesta ou na outra margem do atlântico de lusa-língua dão em holocausto a própria vida pela simples razão de serem diferentes. A dor da diferença é imensurável… 

Ela que houvera brilhado e “matado com sedas”, conforme diz Abrunhosa, padeceu sob às mãos dos mais sádicos algozes num episódio digno das fantasias policialescas das mentes mais férteis de escritores mundo afora. gisberta2



Debilitada pela AIDS e por doenças oportunistas como tuberculose e hepatite, Gisberta, que do brilho das lâmpadas coloridas de neon dos cabarés portugueses foi o foco, agora à escuridão duma construção inacabada padece. 


E ali vivia e ali era insultada, de forma sistemática, por uma malta de guris e adolescentes, inimputáveis à lei, mas que traziam em si a monstruosidade dos cérebros mais insanos. 



A menina que vivia nas trevas da vida e na escuridão de um ambiente qualquer de sua toca de cimento e aço inacabada e insalubre fora raptada, agredida física e psicologicamente, humilhada e seviciada durante dias. 
Foram 13 insanos, entre 12 e 15 anos, conforme apurado em publicações da época, que apagaram a última centelha, tal qual a luz de um pirilampo, dos olhos de Gisberta em fevereiro de 2006. 


Como se não bastasse o horror propiciado por tais enfermos que, ironicamente eram internos de uma instituição que abrigava menores desvalidos ligada à Igreja Católica denominada Oficinas São José, estaria por vir o desfecho tenebroso: como a julgaram morta, após as sessões de torturas, atiraram-na, ainda viva, a um poço da construção em que residia. Gisberta morreu afogada. 


Eu já me remoí refletindo sobre este caso. O que terá pensado Gisberta? Em que momento teria perdido a lucidez antes da morte? Pensou na mãe, pensou na pátria distante? Deve ter-se lembrado dos momentos que antecederam sua saída do Brasil ou, àqueles momentos em que ela mesma era a luz de si própria ou irradiava seu brilho a outrem. Acho que se viu ao espelho antes de cruzar o atlântico, orgulhosa e cheia de anseios. 


Gisberta, a quem confiou seu coração? Lembra-se das vibrações da voz materna dizendo “tenha cuidado, meu filho?”. Quiçá seu último rasgo de consciência tenha-se dado quando estava submersa às águas semi-turvas daquele poço. E de uma mirada de dentro para fora, naquele instante mágico pré-morte, tivesse recobrado a consciência e fitado os seus carrascos. 


Eram águas turvas Gisberta, talvez lágrimas suas que se acumularam no poço ao longo de sua estada por lá e escorriam enquanto você chorava sozinha e ninguém escutava seus soluços.

Você não podia ver suas lágrimas encharcando o chão e enchendo seu túmulo que já ia se construindo úmido e lodoso. Era escuro demais, era tarde demais. 


À luz da justiça (injustiça) lusitana, Gisberta morreu afogada e não havia elementos que corroborassem a culpabilidade daqueles meninos puros das Oficinas de São José. Perseguida, assediada, humilhada, seviciada física e sexualmente, aviltada e morta.



Eram só crianças, eram os pupilos de São José, e, afinal de contas, Gisberta era transexual, soropositiva, moradora de rua, prostituta e imigrante. Uma cadela sem dono, sem família, sem ninguém! 


E as Gisbertas de cá…
 
Eu, por razões diversas, fiquei comovidíssimo com esta estória toda e a pedido de uma amiga muito amada, a jornalista Karina Zambrana, resolvi escrever sobre o tema, mas confesso que tive um bocado de angústia, de tristeza, uma sensação inexplicável de pequenez e revolta diante de tanto que somos submetidos dia a dia.


Eu morei muitos anos da minha vida em pensões, sou originário do interior e por razões circunstanciais vivi anos a fio em pensionatos e pensões para que pudesse cumprir meus estudos até findar-se a graduação. 


Lembro-me especialmente de uma pensão em Aracaju, capital do estado de Sergipe, onde vivi por dois anos. Era um prédio muito antigo, à moda art-decó do início a meados do século passado, uma construção singular à beira da foz do Rio Sergipe. 



Pois bem, chamava-se Rua da Frente o logradouro e a construção onde eu vivia fora apelidada de Castelinho por nós, seus habitantes. A Rua da Frente é uma conhecida zona do meretrício aracajuano. 


Eu me recolhia sempre muito tarde e meu quarto ficava no pavimento superior. Para mim era a própria torre do castelo! Num sábado, lembro-me num fechar não muito rente de olhos, daqueles gritos tão logo repousei minha cabeça em meu travesseiro. 



Tive medo, eram gritos de horror e eu não me atrevi a por cabeça fora da janela. Não queria incomodar os meus colegas do primeiro pavimento. Afinal, o chão era um tabuado de madeira ordinária, puída e bastante barulhento. 



Os gritos não pararam e fui averiguar. Cena dantesca: uma criatura, que jamais pode ser classificado de homem, havia se aproximado de um travesti e dissimulando um acordo qualquer com aquela pobre alma e o agarrou pelos braços, prendeu-o à janela de seu veículo e o arrastou por alguns metros pelo asfalto. 


Os gritos de dor até hoje são recordados, os gritos de sua colega de labuta também não se me escapam à memória. Um horror, meu Deus! No dia seguinte tive notícia que esta pessoa estava gravemente ferida num hospital. Lembro-me de ter chamado o número da polícia, mas de nada adiantou. Choros, soluços, gritarias e o barulho do pneu cantando no asfalto. Não sei se morreu, não sei e tive medo de saber. 


Aqui em Salvador— segundo o Grupo Gay da Bahia, este é o estado onde há o maior número de mortes violentas contra homossexuais, majoritariamente travestis e profissionais do sexo—eu vivo no centro e, à noite, é muito fácil identificar dezenas de Gisbertas à rua. 


Dia chegará, assim espero, em que travestis e transexuais não necessitarão vender a própria carne para pagar o pão. Até lá, uma larga estória de intolerância, crimes, desrespeito e a anuência tácita e cínica do Estado nos golpearão a cara. Lágrimas e soluços de centenas de Gisbertas ficarão mudos e seus verdugos permanecerão impunes. 


Eu não quero entrar no mérito da escolha pessoal de cada qual, não irei fazer juízo de valor sobre prostituição e escolhas íntimas. Cada um é responsável por sua própria caminhada e decisões num Estado democrático e constitucional. 


Eu tenho todo o direito de não aceitar, de não gostar e de no foro da minha privacidade ser intolerante ou esbravejar aos céus que não simpatizo ou desgosto deste ou daquele segmento, mas tenho a obrigação legal, moral e civilizada de respeitar qualquer um que cruze o meu caminho. 


Quantas mães mais se privarão de escutar as vozes de suas filhas e filhos cujas vidas foram ceifadas pela barbaridade de indivíduos doentes incitados pela moral torpe e escabrosa incitada por pseudo-líderes religiosos? Quantos bons dias, boas noites, e adeuses jamais serão pronunciados por bocas desvalidas de sangue, brancas e já mortas? 


Gisberta, a você e a todas as outras e outros que não mais estão por aqui no orbe terrestre, àqueles vivos, não importando se sejam travestis,transexuais, gays ou lésbicas que algum dia deixaram cair lágrimas pelo caminho, eu vos desejo rosas brancas e perfumadas e que o som provocado pela leitura dessas palavras vibre e faça ressoar o melhor intento de felicidades neste ou noutros mundos.
Sócrates Bastos
 
Notas sobre as imagens do texto:
1. Credito todas as fotografias de Gisberta à ONG Portugal Gay e ao site PortugalGay. pt

Quer com camalão ou sem camalão? Com camalão é mais calo!

 
Não é segredo para ninguém que Salvador está coalhada de chineses, sobretudo o centro da cidade. Não é segredo também que este é um fenômeno mundial e, agora mais do que nunca, nada faz mais sentido do que a antropofagia cultural defendida pelos modernistas na Semana de Arte Moderna de 1922, um marco histórico que mudou os rumos culturais do país de uma vez por todas. Tudo bem, eu aceito isso, não sou xenófobo, mas acho que chegamos a um ponto inusitado. 

Outro dia eu resolvi sair de casa para comer alguma coisa na rua, adoro comer tosqueira de lanchonete: empada, pãozinho, sonho – o sonho da Bahia é imbatível!— mas nada supera o acarajé para um baiano nascido no Recôncavo e radicado em Salvador, como eu. A arte de comê-lo está cercada de uma verdadeira ritualística quase litúrgica. O Recôncavo é a área que compreende as cidades que margeiam a Baía de Todos os Santos.
 
Há quem coma o bolinho a qualquer hora, mas baiano que é baiano só o come no fim do dia, perto do pôr do sol e, claro, vem sempre acompanhado de uma coca-cola. 
 

Arrumei-me, eram quase 17h30, lá fui eu descendo aqui a ladeira do Shopping Piedade todo perfumado, cantarolando Ginga e Expressão— uma música da antiga Banda Mel imortalizada na voz de Márcia Short— e todo perfumado de alfazema rumo à Central do Acarajé na Rua Carlos Gomes comer meu bendito acarajé.


De antemão eu sei e me penitencio pelo fato de não ter procurado uma baiana daquelas do tipo credibilidade a toda prova: negras, gordas, adornadas de penduricalhos reluzentes e armadas com colheres de pau gigantescas que fariam um estrago muito grande na cabeça de qualquer gatuno desavisado. Eu precisava comprar outra coisa qualquer lá pelas bandas do Dois de Julho e resolvi comer por lá mesmo.
 
Para quem não conhece e nunca viveu à sombra da Soterópolis, o bairro Dois de Julho e a Carlos Gomes são localidades que se cruzam. Pois bem, quando cheguei à Central do Acarajé, que já não se chama mais dessa forma, eu fiquei um pouco
intrigado. “O que será que estas lanternas chinesas e estes dragões estão fazendo aqui?”, refleti incrédulo, mas entrei assim mesmo. 


Aproximei-me do balcão expositor e não havia ninguém, mas em menos de cinco segundos me aparece uma chinesa para me despachar. “O que o senhor quer?”, perguntou-me a criatura com um sotaque engraçadíssimo e eu, ainda meio anestesiado com aqueles dragões à sombra de um coqueiro respondi rápido: quero um acarajé! “Entón paga na caixa plimelo, pega depois”, eu quase perguntei o que ela estava falando, mas ela se fez entendida logo que sinalizou com dedo indicador em riste para o caixa. Os chineses conseguem falar mais alto que os baianos e sempre sacodem a cabeça quando conversam com seu interlocutor, parecem-me lagartixas de muro.
 
“O sinhô quer acalajé com camalão ou sem camalão?”Quase me mijei de rir quando o outro chinês operador do caixa indagou-me sobre minha preferência acerca do famoso quitute baiano. “Com camarão!”, respondi. 
 
Para minha surpresa eu não sei o que se passou na cabeça daquele chinês que me respondeu prontamente que “com camalão é mais calo”. Será que ele pensou que não podia pagar um pouco mais pelos camarões?
 
Peguei o acarajé, que faço questão de dizer que não o comi no prato plástico, cortadinho como se convencionou servir. Comi-o à mão no papel de embrulho mesmo. Como disse no início, comer o acarajé é, pelo menos para mim, uma espécie de ritual e degustá-lo ,em pratinho plástico manuseando garfinho, é um sacrilégio imperdoável. Como baiano é um bicho estranho mesmo, talvez pense que comer no pratinho é mais civilizado.
 
Sentir o cheiro da massa frita de feijão fradinho no azeite de dendê mesclado ao aroma que emana do coentro e dos tomates picados ,junto às narinas, é imprescindível para mim. Sou totalmente sinestésico e necessito irmanar todos os sentidos no momento de saciar a fome e o papel de embrulho dá aquele toque especial tanto olfativo quanto visual. 
 
Enquanto desfrutava da minha comida refletia sobre os benefícios e malefícios deste mundo globalizado, lembrei-me imediatamente da antropofagia cultural dos modernistas, da aculturação dos indígenas na Amazônia, do apogeu e queda de culturas e quase estava anuindo e tentando convencer-me que as coisas eram assim mesmo e que nada podia ser feito. Não com o meu acarajé! Pode parecer um absurdo, mas senti-me ofendido em ve
r tantos dragões e lanternas chinesas fazendo guarda ao meu petisco predileto.


O acarajé não é só um produto alimentício, é sim símbolo de uma cultura que forjou a identidade do meu estado, da minha região, da minha cidade. Acarajé em Iorubá quer dizer literalmente comer o bolo do acará, e este último pode ser traduzido como bola de fogo. Ou seja, trocando em miúdos o sentido é: comer a bola de fogo. é o verbo comer. 
 

Não consigo imaginar nem conceber outro momento em que o baiano é mais baiano do que este. O momento em que bola de fogo, encharcada pelo brilho do azeite de dendê, qual raios que emanam da adaga de Iansã, cobram do homem e da mulher da Bahia, o seu estômago, seu prazer e seu espírito. 

Mito, mitologia e realidade se fundem aí e o resultado é a amálgama preciosa que é a cultura da minha terra. 
Reminiscências inconscientes das terras de Ibadã, Oyó e Ilê-ifé. Não aceito que nenhum dragão acabe com isso!
 

O acará tem sua origem como oferenda a Yansã, deusa dos raios e tempestades no panteão das divindades iorubaianas, portanto, ainda que se rechace o fato, toda vez que o comemos, mesmo ignorando o seu significado original, é como se houvéssemos saudado à Rainha dos Raios.

 
Posso até imaginar a cara daquela prole apedeuta comendo o “Acarajé de Cristo” em frente ao suntuoso palácio da Igreja Universal do Reino de Deus, na Avenida Antonio Carlos Magalhães, caso conhecessem sua origem mítico-religiosa. Êparrei Oyá!
 

Para isso me serviram as aulas de cultura nigeriana e língua iroubá no Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, há longínquos dez anos. Risos.

Mas, continuando a estória…

Comecei a achar que a massa do bolinho estava um pouco estranha. Não sei o que houve, mas não gostei do sabor. Afinal de contas, era um acarajé com DNA chinês! Fiquei temeroso de encontrar um celular de três chips dentro dele ou me engasgar com chumaços do cabelo daquelas Barbies mandarins horríveis que mais parecem bonecas de sexo em miniatura. 

Refleti um pouco,tomei minha coca-cola e fui acordado dessas reflexões loucas quando meus olhos caíram sobre um vendedor chinês que ,do lado de fora da loja, anunciava aos gritos à venda de jacas frescas. Quer uma jaca fleguês?